Como a comunicação muda tudo na sua experiência.
No blog de novembro do ano passado (2025), conversamos sobre as diferentes formas de vivenciar a montanha, seja contemplando a paisagem ou encarando uma aventura mais intensa. Naquela ocasião, foquei em uma explicação mais técnica dos termos. Vamos fazer uma recapitulação rápida para alinhar os ponteiros:
- Walking: caminhada leve, seja urbana ou em parques.
- Hiking: caminhada contemplativa em trilha (bate e volta).
- Trekking: travessias longas que duram vários dias.
- Backpacking: trekking autossuficiente, levando mochila de camping e pernoitando pelo caminho.
- Trail Running: corrida em trilha, alternando trechos de corrida com power hiking.
- Mountain Running: corrida com foco total em altimetria e ganho de elevação.
- Sky Running: corridas extremas de montanha, em alta altitude e terrenos bastante técnicos.
- Cross Country: corrida rápida em terreno natural e pouco técnico.
Mas, desta vez, quero ir além das definições do dicionário e falar sobre experiência.
Todos nós criamos expectativas antes de colocar o pé na trilha — seja por vivências anteriores ou por puro “achismo”. E a verdade é que o sucesso de uma viagem está diretamente conectado ao quanto a realidade entrega aquilo que a gente esperava.
O fetiche da palavra “Expedição”.
Em junho deste ano, fui fazer o que venderam como uma “expedição”. Para ser sincera, sempre achei essa palavra meio esquisita quando aplicada ao turismo contemporâneo.
Se você buscar a definição, a palavra expedição tem dois significados principais:
- O ato de enviar ou despachar algo (como mercadorias ou documentos).
- Uma viagem em grupo com um objetivo específico, como exploração, pesquisa científica ou fins militares.
No turismo de massa ou de experiência, ninguém está realmente “descobrindo” ou “desvendando” um território virgem. Tudo já foi mapeado. No entanto, quando um passeio ganha o rótulo de “expedição”, a nossa mente automaticamente projeta a imagem de uma aventura rústica, onde algo novo será explorado.
A questão é: o que cada um busca quando fecha uma viagem desse tipo? Quais são os objetivos individuais por trás de cada mochila nas costas?
A travessia dos Lençóis Maranhenses: O que deu muito certo (e o que falhou).
A minha viagem foi um backpacking: durante 5 dias, carregamos nossas mochilas e dormimos em refúgios ao longo da travessia dos Lençóis Maranhenses.
O passeio foi vendido como um “trekking difícil”, acompanhado de uma lista rigorosa de equipamentos e itens obrigatórios. Foi exatamente essa promessa de esforço físico e exigência técnica — caminhar pelas dunas sob o sol em alta performance — que me fez querer se inscrever. Eu queria o desafio extenuante. O lado incrível dos Lençóis Maranhenses:
- Paisagens: O lugar é absolutamente impecável. Entregou tudo e mais um pouco do que promete visualmente.
- Equipe e guias: Extremamente solícitos, atenciosos e prestativos.
- Hospedagem e logística: Os refúgios (que no nosso caso eram redários) foram a maior e melhor surpresa. A forma como a organização manobra uma logística complexa e desafiadora no meio do nada, com tanta eficácia e simpatia, é admirável.
- Grupo: Pessoas simpáticas, agradáveis e colaborativas.

Teoricamente, a receita perfeita. Mas então, por que quando me perguntaram se eu tinha gostado do passeio, eu não consegui responder um simples “sim”?
O problema da comunicação (e a história da laranja azeda).
A minha vivência no terreno foi completamente diferente da minha expectativa. E o nó dessa questão se chama comunicação.
Existe uma espécie de mítica no meio esportivo e nas trilhas de inflar a dificuldade das rotas. Muita gente diz que determinado percurso é “muito mais difícil do que realmente é“, talvez para que os praticantes se sintam mais fortes ou valentes ao concluí-lo. Na minha visão, isso é um erro. Falar a verdade nua e crua dirime uma série de problemas e frustrações futuras.
Isso me faz lembrar de uma amiga da minha mãe. Toda vez que ela vai à feira comprar fruta, pergunta ao feirante:
— Essa laranja está bem docinha?
O feirante, querendo agradar, responde na hora:
— Está uma doçura, dona! Muito docinha!
E ela devolve imediatamente:
— Ah, que pena… Eu só gosto de laranja azeda.
O aprendizado que fica
A minha caminhada pelos Lençóis Maranhenses acabou sendo extremamente fácil, em um ritmo muito lento, repleta de paradas longas para fotos e com excesso de tempo livre.
Para a minha busca pessoal, isso foi ruim. Ao mesmo tempo, eu sei, perfeitamente, que para muita gente esse é o formato dos sonhos!

Se a comunicação tivesse sido clara e baseada em dados reais, eu ainda teria feito a travessia — mas certamente de outra forma, em outro ritmo ou com outro arranjo logístico.
No fim das contas, trouxe na bagagem ótimas lembranças dos Lençóis Maranhenses, fotos maravilhosas e um desapontamento que vira aprendizado valioso para as próximas travessias.
A dica que fica
Entenda profundamente o que você gosta de vivenciar na montanha e exija informações reais, com dados objetivos sobre o percurso. Só assim você consegue avaliar se aquilo que você espera é o que realmente será entregue.

Nos vemos na próxima trilha! Obrigada pela leitura e seja bem-vind@!
Helke
Tour&Natur
Tour&Natur – criada para contarmos aos outros sobre coisas que gostamos!
Nós fazemos as trilhas do Rio de Janeiro há muitos anos e decidimos reunir as informações em ebooks – os nossos eBbookTrails – para ajudar mais pessoas a conhecerem o Rio de um jeito diferente – através das Trilhas!
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