Trilha é Lugar de Mulher?

A Realidade de Fazer Trilha Sozinha no Rio de Janeiro.

Com tantos ânimos aflorados, militâncias de rede social e questionamentos diários sobre o que diabos significa “ser mulher” neste novo milênio, fica difícil acompanhar. Entre entender que a história oficial sempre foi escrita sob o ângulo do narrador (spoiler: quase sempre um homem) e tentar descascar as infinitas camadas do patriarcado e do que fomos ensinadas a aceitar como “normal”, a gente se pergunta: o que sobra? Como descobrir o que somos, o que queremos e do que somos capazes?

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Para mim, a resposta vem na floresta. Caminhar e praticar corrida de trilha  ou trekking solo feminina por muitas horas a fio — e muitas vezes completamente sozinha — me dá um tempo valioso para pensar, repensar e surtar em paz sobre tudo isso.

O Reencontro no Pós-Treino: Quais São os Espaços da Mulher?

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O texto deste mês é sobre algo que venho observando nas trilhas do Rio de Janeiro e que explodiu na minha cabeça ontem, durante um reencontro inesperado com uma amiga no pós-treino. Ali, tentando desfazer um nó conceitual entre um gole de café e outro, a pergunta voltou: afinal, quais são os espaços da mulher na natureza?

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Antes de continuar, deixa eu deixar registrada a minha única certeza: Lugar de Mulher É Na Trilha e  Onde Mais Ela Quiser Estar. Ponto final.

De Marin ao Rio de Janeiro: A Percepção da Trilha Solo Feminina

Agora, voltando ao tema. Eu cresci nas trilhas e cachoeiras daqui do Rio de Janeiro. Na infância e adolescência, era uma atividade de turma, leve, sem metas ou objetivos atléticos. Há uns 15 anos, quando entrei para uma assessoria de corrida e a trilha virou parte do treino, veio o primeiro choque de “realidade”: alguns treinadores não gostavam que nós, mulheres, fôssemos para a trilha sem a presença de um homem.

O argumento? Era muito perigoso. Afinal, homens magicamente não fazem mal a outros homens nas trilhas, não é mesmo? A lógica impecável do protetor universal. Obviamente, nós ignorávamos e íamos juntas assim mesmo.

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Depois, passei um bom tempo morando fora do Brasil. Meu “quintal” eram as trilhas de Marin, na Califórnia — lugar que amo de paixão e que me dava uma sensação inebriante de liberdade. Lá, eu fazia trilha e corrida solo mesmo muito cedo, antes do sol nascer, e cruzava constantemente com outras mulheres fazendo exatamente a mesma coisa. Aquilo foi me dando casca, confiança e uma certeza absoluta: a trilha também era o meu lugar. Eu pertencia àquele espaço.

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De volta ao Rio, mantenho o hábito. Faço trilha sozinha e, mesmo quando saio em grupo, a diferença de ritmo faz com que eu acabe ficando isolada por parte do tempo. Problema zero para mim. O problema é a demografia do caminho.

Andando ou correndo pelas montanhas cariocas, encontrar mulheres na trilha é um evento raro. O cenário padrão é: homens sozinhos, muitos estrangeiros e duplas masculinas. Dupla mista? Quase nunca. Grupo só de mulheres? Acho que vi duas vezes. E não estou falando das rotas super movimentadas do Parque Nacional da Tijuca, não. Nas mais longas, a presença feminina solo é quase lenda urbana.

Cuidado ou Intimidação? O Falso Alerta de Segurança

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E aí voltamos ao papo na padaria.

Minha amiga estava sozinha em uma trilha com um mirante lindo quando um sujeito apareceu, se apresentou e soltou a pérola: perguntou se ela não estava com medo de estar ali sozinha e emendou que “ela não deveria estar ali sem companhia”.

Eu achei uma abordagem intimidadora, invasiva e levemente agressiva. Ela, na sua infinita bondade, interpretou como “cuidado”.

Aí eu precisei perguntar o óbvio: “Se ele estava tão preocupado assim com a segurança feminina na trilha, ele te acompanhou até a saída para garantir que você ficasse bem?”

A resposta dela? “Não, ele falou tudo aquilo e foi embora.”

Pois é. O cavaleiro da moralidade alertou sobre o perigo e largou a mocinha “indefesa” sozinha no perigo que ele mesmo acabou de criar na cabeça dela. Genial. O fato é simples: se algo acontece na trilha, estar sozinho dificulta o resgate. Mas isso é uma questão de matemática e de número de pessoas — não de cromossomo.

Homem ou Urso na Trilha? O Diagnóstico Comportamental

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Para ilustrar o tamanho desse abismo, vale lembrar de uma enquete que viralizou recentemente nos EUA. Perguntaram a milhares de mulheres o que elas preferiam encontrar sozinhas em uma trilha: um homem ou um urso? A esmagadora maioria escolheu o urso. E o mais fascinante: pais entrevistados disseram que preferiam que suas filhas cruzassem com ursos em vez de homens. Um animal selvagem com garras de dez centímetros consegue ser mais previsível.

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Diante de todos esses dados, da preocupação genuína dos rapazes com a nossa integridade e da ciência comportamental da floresta, a única conclusão razoável a que consigo chegar é uma só:

Deveríamos proibir urgentemente que homens façam trilha desacompanhados. A partir de hoje, só entram se estiverem com um responsável do lado. Pelas dúvidas, sabe como é. 😉

picotijuca


E você, qual é a sua experiência nas trilhas?

Já passou por alguma situação parecida ou costuma fazer trilha sozinha no Rio? Deixe seu comentário abaixo e compartilhe este post com outra mulher que ama o outdoor!

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Nos vemos na próxima trilha! Obrigada pela leitura e seja bem-vind@!

Helke

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